“RIBA DE TEJO”, O SONHO
«O dia era radioso, mas não sei em que tempo e estação do ano estava.
Sentia-me pairando sobre uma imensa floresta, de longe em longe via clareiras e nelas deambulavam animais não identificáveis. Nas orlas ribeirinhas de um grande rio e de outro menor nascido numa serra próxima - eram o Tejo e o Coina -, existiam algumas casotas, pareciam cabanas cobertas de palha e junto delas vislumbrava pessoas, mas não percebia o que faziam.
Percorri uma vastidão imensa, senti estar sobre o esteiro do rio Coina, e, pelo ar, ir até à ribeira das enguias, para lá de Alcochete.
De ocupação humana, para além das zonas ribeirinhas, nada via, percebi, estava no século XII.
Num momento apercebi-me estar para além de Coina, ali havia uma estrada que, vinda do fim do esteiro, seguia floresta adentro até um local designado por ‘Cetóbriga’, lá para os lados de onde hoje é Setúbal, daí seguia até outras terras. Pareceu-me, nesse momento, ouvir uma voz: “A estrada vai até Alcácer do Sal, avança por outras terras até Mérida, e contínua. Onde estás foi a primeira estação de repouso dos caminhantes, era ’Eaquabona’. O que vês foi construído pelos Romanos! ”
Sabia já estar no século XIII - até em sonhos o tempo é rápido -. Estava numa zona hoje não identificável, mas sei, chamavam aquele pequeno povoado Santa Maria de Sabonha, era ali a sede do município de Riba de Tejo, de lá se emanavam todas as ordens. Todos os pequenos povos situados entre o esteiro do rio Coina e a ribeira das Enguias eram geridos por aquele município.
Outra voz, agora áspera, dizia-me: “Estamos em 1249, esta terra está situada entre povoados que um dia designarão por Aldeia Galega e Alcochete, mas virá o tempo em que será esquecida por todos, vindouros ordenarão outras divisões administrativas quando aumentarem as populações e se alterar a importância de cada lugar”.
Continuei a vogar sobre todo o território. No lugar que me disseram vir a ser Alcochete vi barcos no rio Tejo e muitas salinas. Naquele que seria Aldeia Galega, existia uma imensa propriedade de um tal Fernão Galego onde muita gente para ele trabalhava. No rio, navegavam barcos em faina de pesca. Já por ali, dispersos, existiam muitos povos.
Algo me encaminhou mais para sul, ao longe havia um castelo e pela estrada da floresta vinham cavaleiros. Nas suas vestes traziam um símbolo como um punho de uma espada em forma de cruz. Entendi uma informação: “São cavaleiros da Ordem Religioso-Militar de Sant’Iago da Espada, estão sedeados no Castelo de Palmela e ordenam em toda esta região, eles são senhores de todos os haveres, sem a sua aquiescência nada se pode fazer.”
Estupefacto, meditei: como tudo é diferente nestes tempos. Levado, persegui a minha viagem e o tempo ia avançando.
Ao longo de toda a margem do Tejo havia azáfama. Já povos de outros lugares distantes tinham chegado a estas terras. Nos rios e nos esteiros navegavam barcos. As salinas abundavam em toda a zona ribeirinha, marnotos trabalhavam sem descanso e os montes de sal brilhavam sob a projecção dos raios solares. A agricultura já era visível, estendia-se por várias zonas a partir da orla dos rios em largas áreas. Já havia povos onde antes era floresta.
Continuo, estou no século XIV e vejo moinhos movidos pelas marés, onde a natureza criou uma caldeira iam-se construindo moinhos e muitos mais se construíam enquanto o tempo avançava.
Barcos pescavam e carregavam mercadorias para a capital do reino. As naus que deveriam partir para a distância na procura de outras paragens, saíam da capital e, para sua segurança, abrigavam-se no esteiro do rio Coina.
Tudo ia progredindo, o século XV já estava presente e ao longo do esteiro do rio Coina ocorria um desenvolvimento extraordinário. Via-se o Complexo Real de Vale do Zebro onde um grande moinho de marés com oito moendas transformava os cereais em farinha para os fornos produzirem o biscoito que alimentava os nossos navegantes, e, mais perto da foz, outro complexo, a Feitoria da Telha, onde, aproveitando a madeira das matas, se construíam naus. Dentro da mata muita gente labutava produzindo artefactos cerâmicos. Era a zona mais desenvolvida.
Já por muitos lugares alguma gente era senhora de bens, havia casas senhoriais, as mais importantes recebiam a nobreza fugida aos males da capital, refugiavam-se na zona sobre a qual pairava.
Veio o século XVI, era o ano de 1514 e senti a imensa tristeza dos povos de Riba de Tejo. É extinto o município. Quem põe e dispõe o ordenou, são formados os concelhos de Alcochete, Aldeia Galega e Alhos Vedros.
Com o burburinho causado pelo acontecimento acordei estremunhado».
Fernando Faria
10.01.2010. 15:33
