Carta para a minha bisavó FELICIDADE
Bisavó,
Lembras-te? Era assim que te tratava. Ensinaram-me que a minha avó era tua filha, e tu, a avó da minha mãe.
Quando eu era pequenino já eras uma velhinha. Como o tempo passa! Agora estou a aproximar-me da idade com que te conheci. O tempo é rápido e corrói os humanos.
Foste mãe de onze filhos, foi obra. É obra grande ser-se progenitora. Onze vezes do teu ser brotaram novos seres. Onze vezes transportaste cargas de amor.
Muito pão amassaste na vida e muito calor produziu a tua lareira, foste a luz da tua casa.
Aos homens viste-os dispersarem-se, todos saíram de casa para conquistarem o seu mundo. As mulheres ficaram perto de ti.
Tu não sabes, mas eu digo-te: nos últimos anos do século XX construí a árvore genealógica de que tu e o bisavô Alexandre são a raiz. Já vamos na quinta geração. Depois reuni quantos consegui na terra onde viveste e é a nossa origem, éramos mais de sessenta.
A árvore e a sua raiz – o vosso retrato – foram afixadas no local do encontro.
Mas queres saber? Houve quem perguntasse quem eram aqueles da fotografia. Esqueceram-vos, que ingratidão. Não percebem porque estão no mundo.
A vossa casa, implantada no terreno que ainda é vosso, continua de pé. Talvez ela não se tenha esquecido de ti, sim, de ti, porque eras a senhora da casa onde onze crianças viveram agarradas às tuas saias compridas. O teu marido abalava todos os dias, montado no cavalo, percorrendo a légua que vos separava da cidade onde tinham a loja que vendia de tudo.
A tua casa ainda tem a porta aberta, parece esperar por ti, ou será porque nunca a fechaste desde o dia em que teu filho Joaquim por ela saiu e emigrou para o Brasil? E tu, mãe extremosa, ficaste esperando o seu regresso. Sei que desde esse angustioso dia jamais a porta foi fechada. Dia e noite ficou aberta para que ele entrasse livremente sem necessidade de quem lha abrisse. Assim ficou até ao dia da tua morte.
A tua saudade e dor foram do tamanho do mundo e acompanharam-te até ao último dia. Ele não voltou. Até hoje ninguém dele teve notícias. Nada roubaste ao mundo e ele roubou-te um filho.
O teu nome não fez jus ao que desejavas: FELICIDADE.
Fernando Faria
(1.º classificado em prosa nos J. Florais da UATI – Algarve, em 2008)
31.12.2009. 00:48
