VELHOS AINDA MAIS VELHOS
Velho triste, velho só;
Foi-se a terra, o sol, o vento,
O ar doce, o trigo, o pó,
Até o saber, até o sustento!
Velho agora até em tudo,
Velha raíz que secou,
Homem curvado, mole, mudo,
Moldura que alguém pintou!
Velho velho, já sem nada,
Foi-se o beijo, foi-se a postura,
Calou-se a alma, calejada,
Nos campos de vida dura!
Velho que ceifaste as mãos
Na rabiça do arado,
Na luta de intentos vãos
Por um tostão mais corado!
Velho professor de sementes,
Velha enxada de poesia,
Velho pai de terras quentes,
Velho alguém… que foi um dia!
Pelo pão que tu nos deste,
Pela cultura que amaste,
A que Céus tu ascendeste,
A que infernos mergulhaste!
Dirá a História, digo eu,
Nesse abandono em que estás,
Velho velho, amigo meu,
Merecias outra paz!
E tu, velho pescador,
Hoje também velho triste,
Do lobo que foste, por amor,
Da proa ao alto, em riste!
Maus dias, piores noites,
Medo e frio… fome e sede!
Fustigado por mil açoites
Nas danças com a amiga rede!
Velho do lance mais alto,
Do alto mar para o céu,
Onde em vagas de sobressalto
Todo esse mar era teu!
Lembras-te, na cais, manhãzinha,
Quando atracavas a frota…
Quantas caixas de sardinhas
Cantavas, feliz, na lota!...
Velho amante do mar profundo,
Hoje náufrago… d’outras águas,
Velho empurrado… p’ró fundo,
Encharcado… por podres mágoas!
Quando te vejo, velho amigo,
Qual Cristo crucificado,
Vejo um velho… de castigo,
Na vazante do mar salgado!
Seco e rugoso mas desperto,
Olhas quem vai… quem vem,
Ninguém ao longe e, ao perto,
Só gaivotas… num vaivém!
João Saraiva
14.01.2010. 21:13
