MANIFESTO ANTI
Deambulam pelas esquinas
sombrias sombras escurecidas
na luz incendiada
do desespero cruzado e cúmplice
narco-solitário
olhos mortiços
circundados por óculos imensos
negros e opacos
magros
na moldura do corpo
a paisagem amarela enverdece
o sorriso deslumbrante
no esplendor da infância fugidia
no vaguear errante
dos sentidos
heróis auto-perdidos
pelos caminhos da heroína
cambaleantes
viandantes clandestinos
bêbados da vida
e sôfregos de si mesmos
sufocados pelo oxigénio apodrecido
e denso
a galope a galope
a galope para o fundo do deserto
aberto na miragem
que foge e se enrola
e enrosca nos próprios ossos
descarnados
portadores de vírus incomodativos
que a sociedade civilizada
e proxeneta
incuba na complexidade do sistema
promíscuo e rectro activo
ah cínicos e porcos
carcereiros do amor
são vossos vossos
e nossos os corpos mutilados
afoguem-se nas lágrimas de todas as mães
morram em todos os cadáveres
colham os restos
os resíduos que ninguém quer
e deixem-nos jazer
na cloaca fermentativa
do discurso fétido
apodrecido
na consciência televisiva
antes que nasçam as nascentes
dos rios trazidos pelas correntes
pelo luar e pelos relentos
que humedecem a secura das noites
das noites prenhas de esperança
que hão-de parir das entranhas
o que jamais fora parido
para altar de sacrifício
dos ladrões de cristos
para adoração
dos sacrificados
para glorificar as noites que fecundam os dias
apagam-se os olhos das montras
para esconder a vergonha de estar vivo
eram doces os beijos das maçãs
antes que o beijo fora dentada
os frutos das manhãs
vinham no ventre do amor
glorificai os ovos
para se poder morrer
nos jardins jazem as cidades e seus filhos
que eram flores de inocência
adágios dolentes de aranjuez
vêm no ventre do amor
com os frutos das manhãs
bebei as manhãs
as alvoradas e as amoras
para que os dias sejam possíveis
e os bicos dos seios
floresçam nos lábios das crianças
ah o silêncio
apagam-se os olhos das montras
o sossego e a escuridão
o que tem e não tem sentido
o sentido dos sentidos
no silêncio do corpo
que se encarna
a crispação do corpo frio
o calor gelado de estar vivo
entre todos os mortos
entre todos os vivos
que fecham o cerco do círculo
apagam-se as montras
das montras sem olhos
crescem flores disformes
nos olhos das árvores primitivas
sem olhos claros
florescem copas desenraizadas
flores de ossos com pétalas de sangue
e a seiva sem vida
amarela de icterícia
hepatite b e sida
ai a.i.d.s.
para onde vai a vida
o medicamento
a medicina
a última invenção
a vacina
a sopa que arrefece na terrina
todos os cães do mundo
farejam nas vísceras
a salvação
salve-se quem puder
primeiro o negócio
depois o preservativo
resolutivo
pilatos lava as mãos no mictório
depois de mijar na fonte
e sacode os dedos
sacode
du champs sorri
ao lado do bigode de mona lisa
faz cair o pano
sobre o sarcasmo de todos os sacanas
da vinci ganha a eternidade
como as pátrias dedilhadas por chopin
a dignidade das mãos sujas
dos corpos desumanizados
que levantam as catedrais de sofrimento
sem lugar para o altar
e a terra húmida
engravida-se do sangue e da seiva
onde o teu corpo
floresce
e o teu nome cresce
perfume de silêncio
sombra depressiva de outono
incendiada de onagra
na morte doce das tardes
abaixo a natureza
as leis biológicas
a nova ordem
o número de contribuinte
tatuado no tecto do cérebro
a nova ordem
adesiva e cola
rege-se pelo código das finanças
as crianças bebem cola
jogam aos dados ao nascer
esperam em sorte
os pais que vão ter
bem vindos à luz
que vos saúda
sustei o vómito
soltai o grito
tomai o antibiótico
deambulam pelas esquinas
na moldura do corpo
heróis auto-perdidos
portadores de vírus incomodativos
pilatos sacode os dedos
mona lisa com o fogo no rabo
sorri de braço dado a du champs
sorri sorri ri
ah o silêncio
a nova ordem
levantai do silêncio todas as cruzes
todos os que ao morrer pelas pátrias
enriqueceram mais os ricos
acordai nos vivos e nos mortos
o sono da esperança
para amadurecer os frutos
que vêm no ventre das manhãs
rasgai rasgai
todos os versos são indecentes
se deus existe em algum lugar
deixai-o estar aonde está
e contentai-vos
do resto embriagai-vos
Novembro 98 P. Clé
10.02.2010. 15:08
