Liturgia de um sonho
Inundaram-me o cérebro com taças de lixo.
Coseram-me a boca com linhas de tudo.
Sem horizonte caí. Chamaram-me de bicho.
Encolhi-me a um canto e gritei como um mudo.
Acusaram-me de hostil como se fosse um bandido.
Partiram a porta e despejaram-me na rua.
A noite era fria e eu nada tinha vestido.
Alguém socorreu-me. Esse alguém foi a lua.
Olhei de soslaio e deparou-se-me um estranho.
Tinha na mão uma carta que o vento trouxera.
Lá dentro um papel e nele um desenho.
Era dum bicho igualzinho ao homem que eu era.
E o luar em redor com velas pretas acesas.
E o vento a uivar com martelos de um fado.
Quis fugir para longe. Senti as pernas bem presas.
E tão bem presas estavam que acordei amarrado.
João Saraiva
26.12.2009. 21:41
