É ESTE O MEU PAÍS
é este o meu país onde cada um é um apátrida dentro de si.
é este o meu país esfrangalhado na brancura anárquica dos silêncios.
é este o meu país de sonhos franjidos devorando vermes nos cemitérios da ansiedade.
é este o meu páis de Dantes vivos na alma doa mortos com um pim de Almada Negreiros.
é este o meu páis enforcado na alcobaça do rapé vicioso.
é este o meu país de rejeição e ódio que condena os desesperados a amá-lo.
é este o meu país o meu país de corsários gloriosos do passado à espera do devir na pirataria do presente.
é este o meu país renegado e alcorcovado no alcouce das suas próprias contradições.
é este o meu país de fé fornejada na boa fé das almas simples.
é este o meu país hipotecado aos milagres em que ninguém acredita sem deixar de crer.
é este o meu país de mercenários à mercê da desventura orfã dos seus filhos.
é este o meu país triste e adiado chorado pelos cangalheiros dos dias felizes.
é este o meu país manietado manicurto aprisionado no percurso curto do comedor ao poleiro.
é este o meu país gaiola com escritos nas janelas abertas para parte nenhuma.
é este o meu país de pobres emigrantes que voltaram pobres a fingir de ricos.
é este o meu país de mentira e subterfúgio escondido na claridade das suas contradições.
é este o meu país invertebrado e réptil que amolece na promiscuidade da nova Europa.
é este o meu país Alentejo com a reforma agrária aos pés a comer as lágrimas do prato.
é este o meu país de juventude envelhecida e encarquilhada na dependência difusa.
é este o meu país nado morto a quem foi recusada a sepultura.
é este o meu país de fuga e recusa a farejar a perruma presa ao rabo
é este o meu país de praias amarelas de azul-verde repletas de barcos moribundos.
é este o meu país de poetas e labrões de gente simpalhona e canalha simulada de boa gente.
é este o meu país de reis e vilões montados num cavalo bravo domesticado chamado povo.
é este o meu país traído e corneado pelos vendedores de ilusões na sodomia das palavras vazias.
é este o meu país cansado de promessas prometidas contidas na infância permanente.
é este o meu país de seiva e terra que gerou os cravos de Abril.
é este o meu país de dedos crispados na memória do sangue derramado nas searas de Catarina.
é este o meu país calculado tartufado usurpado e crucificado nos cadafalsos de Novembro.
é este o meu país de amos que não amam e devassavam o sorriso feliz das crianças na inquisição do salário mínimo.
é este o meu país perturbado arrematado em hasta pública num leilão de objectos perdidos.
é este o meu país com passaporte socialista embarcado no navio fantasma do capitalismo obsceno.
é este o meu país bola de futebol que rola sem encontrar a baliza.
é este o meu país casa de arquitectos à espera dos operários da construção civil.
É ESTE O MEU PAÍS QUE SOMOS NÓS QUE AINDA NÃO SABEMOS QUE ELE É NOSSO.
“in BRADOS do ALENTEJO”
P. Clé -- 2002
25.01.2010. 14:40
