A PARTILHA
Olhou-nos apenas de soslaio,
como se os nossos olhos
pudessem perturbar aquele idílio.
Num gesto de flanela afagou-lhe o pescoço;
os dedos percorreram-na com o carinho
da sua mão mais querida: a esquerda.
Encostou-a ao peito
e a sua outra mão deslizou-lhe no ventre
como se a fosse desflorar ou, apenas e só,
num gesto de pura excitação.
Cerrou os olhos e deixou fluir,
num movimento perpétuo,
um canto de amor, a dois,
como se o mundo flutuasse à espera
e não existisse nada nem ninguém
para além da ingenuidade virgem
daquele dueto espiritual.
O som daquele amor escorria-nos por dentro,
numa partilha talvez por eles desejada,
mas que tinha, para nós, um sabor inquietante de profanação.
O silêncio acordou-nos;
abrimos os olhos e o Homem ali estava,
com a mão no pescoço dela,
sorrindo timidamente para nós
como quem se desculpa de ter partilhado
um acto de amor genial
e de o ter feito durante a vida inteira,
como quem respira
OBRIGADO, CARLOS PAREDES.
De: Fernando Tavares Marques
19.12.2009. 00:36
